RESENHA - CARTAS A UM JOVEM TERAPEUTA

RESENHA

 
CARTAS A UM JOVEM TERAPEUTA (2004).


Cartas a um Jovem Terapeuta (2004), escrito por Contardo Calligaris, que é psicanalista doutor em psicologia clínica (Université de Provence) e colunista da Folha de São Paulo. Italiano, hoje vive e clinica entre Nova York e São Paulo. O livro está dividido em 11 capítulos, distribuídos em 155 págs. e é voltado para todo o publico, e em seu livro apresenta uma série de cartas escritas por Ele, aos interessados ou iniciantes na área da psicoterapia. Considero um livro essencial para estudantes de psicologia.

O livro traz em seu conteúdo, duvidas de dois jovens em início de carreira, assim, elucidando os aspirantes sobre o perfil de um psicoterapeuta, como deve ser o setting, sobre a cura, o amor transferencial, etc.

Calligaris inicia seu livro dizendo sobre a vocação profissional, que para ser um bom psicoterapeuta, é útil que possua alguns traços de caráter ou de personalidade, que dificilmente podem ser adquiridos no decorrer da formação. Pois, se o psicoterapeuta espera gratidão de seus pacientes, esqueça. Nada de presentes no Natal, na Páscoa ou nas outras festas. Nas curas que proporciona, o psicoterapeuta é, por assim dizer, ele mesmo é o remédio. E, nos melhores dos casos, quando tudo dá certo, ele acaba exatamente como um remédio que a gente usou e que fez seu efeito e pronto, o remedio é esquecido. 

Que em regra, idealizamos nossos profissionais da saúde. Quando os consultamos, levando-lhes nossas dores, depositamos neles toda nossa confiança, porque imaginamos, supomos que eles saibam sobre nós e nossos males exatamente o que é preciso para que eles possam nos curar. É bem possível que essa confiança seja excessiva, mas, mesmo em seu excesso, ela é útil para que uma cura funcione. A importância da confiança para que as curas funcionem, vale provavelmente para todas as profissões da saúde. E vale mais ainda no caso da psicoterapia.

Há terapeutas que escolheram a profissão com uma boa dose daquela vontade de ser amado e admirado, talvez seja uma contra- indicação para o exercício da profissão. Calligaris confessar que alguns desses terapeutas podem ter sucesso com seus consultórios abarrotados, mas eles devem seu sucesso profissional ao amor e à admiração que nunca se esquecem de alimentar em seus pacientes, transformam-se em dependências químicas.

O traço de caráter Calligaris resumiu: procuraria em quem pensa em ser terapeuta, se você sofre, se seus desejos são um pouco (ou mesmo muito) estranhos, se (graças à sua estranheza) você contempla com carinho e sem julgar (ou quase) a variedade das condutas humanas, se gosta da palavra e se não é animado pelo projeto de se tornar um notável de sua comunidade, amado e respeitado pela vida afora, então, bem-vindo ao clube: talvez a psicoterapia seja uma profissão para você.

Calligaris responde a 4 bilhetes sobre o inicio do trabalho do terapeuta, para pacientes escolher um terapeuta o importante é a confiança que se tem por ele, e não é relevante a aparência ou até a opção sexual. Ele fala sobre pacientes que se deve ou não tratar, um grande analista francês, Jacques Lacan, que disse, durante uma supervisão, “que a gente não deveria oferecer tratamento aos parricidas”. Mas não explicou por quê. Ou seja, que cada terapeuta tem seus próprios limites para oferecer análise.

“Será que não deveríamos acrescentar, entre os traços de caráter esperados num terapeuta, uma vontade de mexer com a vida dos outros, de ensiná-los, influenciá-los?” A resposta é que a escolha da direção ou do caminho não deve ser decidida por uma norma, nem mesmo por uma sabedoria. E é por isso que uma terapia leva tempo, porque, antes de empurrar, é preciso que o desejo consiga se manifestar, assim, na hora de empurrar, o terapeuta, deve respeitar a direção apontada pelo desejo do paciente.
Sobre o primeiro paciente a muitas duvidas, sobre começar a atender e conseguir seu primeiro paciente, ou seja, mas quem escolherá um recém formado como terapeuta ? 

Calligaris conta sua historia como conseguiu seu primeiro paciente e diz que a escolha de um terapeuta é sempre guiada por razões um pouco mais complexas e reveladoras do que o próprio paciente imagina. O mais simples talvez seja que nos contentemos em ser nós mesmos e salienta que a experiência certamente ajuda na conduta das curas, mas, seria bom que guardássemos sempre alguns elementos do espírito do debutante: a curiosidade, a vontade de escutar e, por que não, o calor de quem, a cada vez, acha extraordinário que alguém lhe faça confiança.

A confiança traz os amores terapêuticos, vem da admiração, do respeito e, em geral, dos sentimentos que destinamos às pessoas a quem pedimos algum tipo de cura para nossos males. Calligaris comenta que esses afetos facilitam o trabalho do terapeuta e que, neste caso, espera-se que o encantamento se resolva, acabe um dia. Sem isso, a psicoterapia condenaria o paciente a uma eterna dependência afetiva.

A psicanálise deu a essa paixão um nome específico: amor de transferência. O termo sugere que o afeto, por mais que seja genuíno, sincero e, às vezes, brutal, teria sido “transferido”, transplantado ao terapeuta.

Esta situação de paixão transferencial leva a paciente a supor que seu terapeuta detenha o segredo ou algum segredo de sua vida. Ou seja, a paciente idealiza o terapeuta, e quem idealiza acaba se apaixonando. Calligaris conclui: o apaixonamento da paciente é um equívoco. E não é bom construir uma relação amorosa e sexual sobre um equívoco. Se paciente e terapeuta se juntar, a coisa, mais cedo ou mais tarde, produzirá, no mínimo, uma decepção e, frequentemente, uma catástrofe emocional, pois a decepção virá de um lugar que pode ter sido idealizado além da conta. Pode acontecer uma vez na vida. Sabendo – se, que um verdadeiro encontro é muito raro, e é compreensível que um terapeuta não deixe passar a ocasião, mas a partir da segunda, a série é suficiente para provar que o terapeuta está precisando de terapia. É por isso, aliás, que é sempre bom que um terapeuta, de vez em quando, volte a ser paciente...

A formação segundo Calligaris de um psicoterapeuta é o tratamento ao qual ele mesmo se submete, espera-se que, nesta experiência, o futuro terapeuta se depare com a complexidade de suas motivações, sintomas e fantasias conscientes e inconscientes e para não desprezar os estudos de psicologia ou de psiquiatria.

É indispensável que um psicoterapeuta tenha instrumentos diagnósticos para não confundir, sintomas de uma ou de outra. Na suspeita, é bom encaminhar o paciente para um check-up neurológico, vascular e endocrinológico. É útil que um psicoterapeuta conheça os princípios diagnósticos do Manual Estatístico Diagnóstico adotado pela Organização Mundial da Saúde, uma experiência efetiva e consistente com pacientes psicóticos, com toxicômanos e conhecer os princípios ativos dos remédios psicotrópicos. Espera-se também que, nesse emaranhado, o terapeuta escolha um fio e o percorra detalhadamente, lendo e estudando.

Curar ou não curar, Calligaris relata que um grande número de colegas psicanalistas acha estranho que, nestas cartas, fale de psicoterapia e de psicanálise como se fossem parentes próximos. Em princípio, eles certamente reconhecem que a psicanálise é a matriz mais importante que opere com as motivações conscientes e inconscientes de quem sofre. Mas não aceitam que a psicanálise seja uma psicoterapia, recusam a ideia de que o psicanalista se proponha a curar, de uma maneira ou de outra, o sofrimento de seus pacientes.

Em muitos casos, o paciente busca uma psicoterapia por um problema bem definido: um medo específico, uma ejaculação precoce, um pensamento obsessivo ou uma dificuldade de tomar uma decisão na vida.

Freud, por exemplo, recomendava que os psicanalistas não tivessem pressa de curar. Tentando imediatamente combater o sintoma ou ajudar na solução do dilema, o sintoma e o dilema apenas se deslocaram para outro lugar, o fato é que a pressa de curar e decidir são uma péssima conselheira.

Uma psicoterapia é uma experiência que transforma; pode-se sair dela sem o sofrimento do qual a gente se queixava inicialmente, mas ao custo de uma mudança. Na saída, não somos os mesmos sem dor; somos outros, diferentes.

Para Calligaris, os argumentos apresentados até aqui nos encorajam a redefinir o que é a cura que pode ser esperada de uma psicoterapia e sugerem que, justamente para curar direito, o psicoterapeuta não deve se apressar.

Essa discussão, Por que a psicanálise não seria uma terapia? Por que a ideia de curar o sofrimento psíquico se tornou objeto do escárnio de muitos psicanalistas? a uma razão histórica que começou no final dos anos 60, época triunfante da contracultura americana e do espírito do maio francês, em que a crítica e a revolta eram o único sinal verdadeiramente aceitável de “saúde” mental. Nascia o movimento antipsiquiátrico.

Nos anos 70 e 80, os psicanalistas americanos, por exemplo, queixavam-se de uma diminuição do número de pacientes e de candidatos e explicavam a penúria pelo fato de que talvez a psicanálise clássica fosse uma cura longa e trabalhosa demais. Uma geração revoltada, apaixonada pelas ciências humanas e ameaçada de desemprego estava entregue a furores abstratos; a psicanálise francesa respondeu perfeitamente ao mal-estar dessa geração, considerando a ideia de curar como anátema.

Calligaris se interessa pela psicanálise por sua capacidade de transformar as vidas e atenuar a dor. Ele diz que uma reserva diante da palavra “paciente”, é porque espera que todos sejamos impacientes com o sofrimento desnecessário que, eventualmente, estraga nossos dias. A psicanálise não se afastou de um projeto terapêutico; apenas passou a propor a todos, como cura, a chance de tornar-se psicanalista. Com isso, aliás, curou suas próprias finanças e qualquer crise de clientela. Lacan avançara seu entendimento do fim da análise também para polemizar com a ideia de que o fim de uma análise seria uma identificação com o analista.

Uma prática e uma disciplina têm seus dias contados se perdem o rumo de sua utilidade social para se preocuparem apenas com sua própria reprodução. Enfim, essa história contém lições que podem ser valiosas para você, especificamente na hora em que se pergunta como estabelecer sua clínica. Seu primeiro compromisso não é com “a psicanálise” ou “a psicoterapia”, seu primeiro compromisso é com a comunidade na qual você presta serviços. E o compromisso é de prestar o melhor serviço possível.
“O que fazer para que mais pacientes cheguem até meu consultório?”. “Para estabelecer sua clínica, vale esta máxima: se seu compromisso for com os pacientes, não se preocupe, eles vão acabar sabendo”.

Calligaris revela que é um leitor obstinado. Os textos com os quais mais penou foram a Fenomenologia do espírito, de Hegel, e os Escritos, de Lacan. Eles me servem de referência: quando o esforço de leitura se aproxima do que eles exigiram de mim, é bom que o texto prometa um conteúdo de riqueza equivalente (o que é raro). Se não for o caso, passo adiante. Fora isso, há momentos em que um sólido senso de humor pode ser salutar para evitar as armadilhas transferenciais da obscuridade.

Você me pergunta se, no começo de uma cura, é bom dar alguma indicação ao paciente ou mesmo explicitar algumas regras. O pressuposto que justifica essa regra é o seguinte: no que a gente fala, opera uma lógica interna, que nós não percebemos. Quanto menor nossa intervenção na escolha e na organização do que falamos, tanto mais essa lógica interna poderá nos levar a dizer coisas inesperadas por nós mesmos, a descobrir algo que estava em nossos pensamentos sem que soubéssemos. Aliás, geralmente, é logo quando tentamos policiar cuidadosamente nosso discurso que podemos cometer um lapso revelador. 

Agora, lembre-se do seguinte: de qualquer forma, as palavras sempre levarão seu paciente por terras imprevistas. Então, formular ou não a regra fundamental? Não perca muito tempo debruçando-se sobre essa questão. Decida você também “livremente”, ou seja, explicite a regra quando lhe parecer importante ajudar o paciente a ultrapassar seu pudor, sua vontade de se mostrar inteligente ou sua necessidade de construir explicações racionais. Mas cuide disto: enunciar a regra deve servir para autorizar o paciente a falar, não para obrigá-lo a falar do que você quer ouvir.

Há duas outras regras que o próprio Freud considerava com simpatia e que, um pouco esquecidas, talvez mereçam sua atenção. Ela pede ao paciente que, durante sua análise ou terapia, evite tomar decisões cruciais e irreversíveis na condução de sua vida. A regra é sábia, mas encontra alguns problemas. A segunda regra pede que o paciente se comprometa a não falar de sua terapia com os seus próximos, familiares e amigos. Pois, podem hostilizar a cura de um paciente, porque receiam que o tratamento modifique a relação que o paciente mantém com eles. E membros de um casal, se ambos ficassem calados, as palavras dos terapeutas poderiam mesmo surtir o efeito que ambos declaram desejar.

Segundo Calligaris a sugestão para o Setting é a seguinte: leia e cogite sobre essa questão, mas leve em conta que, como disse o próprio Freud, talvez a decisão possa depender simplesmente de uma questão de conforto, seu e de seu paciente. E referente a entrevista preliminar Ele prefere engajar com pacientes que pareça possível estabelecer uma aliança. Mas uma aliança diferente; é possível ser o aliado do desejo do paciente contra as razões pelas quais ele se impede de desejar. Há vozes que incomoda. Não sei bem por quê. 

Quero saber o que o paciente espera da terapia que começa. Ao contrário, a resposta, em geral, manifesta, sobretudo por quais caminhos o paciente está bem decidido a obstaculizar seu desejo. Pois bem, a uma maneira de medir o andamento de uma cura, consiste em repetir, regularmente, aquela pergunta inicial. Pois é frequente que a resposta do paciente mude, que ele passe a esperar de sua terapia algo diferente do que ele esperava no começo. Quer seja porque se aproximou do que ele deseja mesmo e consegue pedi-lo (a si mesmo, ao terapeuta e à vida), quer seja porque achou novos caminhos, talvez menos penosos, de organizar sua fuga do que ele quer. De qualquer forma, a mudança da resposta me orienta.

Numa época, parecia que a duração das sessões fosse uma questão crucial, da qual dependiam o alcance e o sentido da cura. Hoje, minha fórmula preferida é um tempo variável, mas não breve, a sugestão é que invente uma maneira de atender que seja a sua.

Pois é, quem paga? Como? Quem trabalhava em ambulatório ou em outras instituições públicas, seus pacientes não pagavam. Às vezes, sonho com um sistema em que o paciente pagaria uma mensalidade fixa, e o número de sessões do mês seria variável, segundo o que pedem a cura e seu momento. Mas é uma utopia, afirma Calligaris. E a supervisão não deveria custar mais do que você ganha atendendo o paciente cujo caso você decidiu supervisionar.

Neste capitulo Ele opina sobre a disputa entre psicoterapia ou psicanálise de um lado e bio psiquiatria ou neurociências do outro é uma falsa disputa, quem alimenta essa oposição não conhece quase nada de psicoterapia ou psicanálise e sabe ainda menos de farmacologia e de neurociência. Porque a descrição neurocientífica de nossa atividade cerebral não altera nem um pouco as condições de nossa experiência. Uma coisa é a descrição científica de nós mesmos, outra coisa é nossa experiência.

Mesmo assim, você se pergunta: deveríamos sempre procurar na infância e só na infância as razões do sofrimento psíquico, mesmo que nosso paciente afirme o contrário? Explico melhor: não estou nada certo de que os acontecimentos da infância sejam de uma natureza diferente do que nos acontece hoje. Tampouco sei se é verdade que, pela receptividade de nossos primeiros anos, eles nos marcam com um ferro mais quente, que deixaria vestígios para a vida inteira.

Mas uma coisa sabe: qualquer evento nos marca e nos transforma só na repetição ou, melhor dito, num segundo momento, em que ele é evocado, retomado, revivido. Qualquer cura tem duas faces: uma, digamos assim, demolidora, que desfaz as certezas cristalizadas da história que nos acua em sintomas que, à vista de nosso passado, parecem inelutáveis, e outra, construtiva, que nos permite reinventar ou modificar um pouco a história da qual seríamos o fruto.

Duas razões, então, para que façamos o esforço de evocar o passado, em cada cura: para reinventar o sentido de uma história e para amenizar o peso do futuro, devolvendo assim, quem sabe, seu justo lugar ao presente de nossas vidas.

Você se queixa também de que alguns de seus pacientes parecem considerar que todos os seus males são, por assim dizer, resultados de causas externas. Essa distinção entre eventos externos e eventos internos, culpa da gente e culpa dos outros, alimenta um conflito infindável entre sociólogos e psicoterapeutas ou, às vezes, entre psicólogos sociais e psicólogos clínicos. No ringue, parece que se enfrentam dois lutadores; de um lado, os que acham que a personalidade e os sintomas são frutos da cultura, do emaranhado das relações e dos acidentes da vida, do outro, os que acham que personalidade e sintomas são frutos da dinâmica interna de impulsões, desejos e censuras que se originariam no fundo singular da alma.

Mas não esqueça que somos todos membros de algum grupo burocrático, assim como somos todos suficientemente narcisistas para deixar ao olhar dos outros o cuidado de decidir quem somos.

Você me pergunta: “Que mais você gostaria de me dizer, antes que a gente se separe?” Claro, há mais mil coisas das quais gostaria de lhe falar um pouco. De qualquer forma, como lembrava Freud, a gente nunca consegue transmitir o que sabe de melhor.

O importante, para mim, não é que os dolorosos sejam evitados; o importante é que todos sejam saborosos, ou seja, que topemos saboreá-los. Eles querem mudar, e você também, junto com eles, pode querer que eles mudem. Mas uma mudança não é coisa que possa ser imposta. Ela não virá da imposição do rigor abstrato da técnica que você aprendeu, do setting no qual você se formou ou da teoria com a qual você escolheu justificar suas palavras e seus atos terapêuticos. Ao contrário, para que uma mudança aconteça um dia, é preciso que uma relação comece; e uma relação só pode começar nas condições que são irrenunciáveis por seu paciente.

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